sexta-feira, 25 de novembro de 2011

FAZER OU SABER COMO FAZER ?




Aconteceu numa primavera na Baía de Chesapeake, no litoral sul dos EUA, em 1897.
O Eric, entendiado com sua faina diária de captura de ostras e caranguejos naquele trecho da baia, havia acabado de fazer sua refeição, um guisado de ostras e bolinhos de carne desfiada de caranguejos (*)
Seu barco "aleijado" como chamava seu SkipJack, ( designação desses barcos em homenagem ao peixe de maior ocorrência  na baía de Chesapeake)  balançando suavemente na baía em maré muito baixa naquele momento.

Cumpre-se dizer que seu barco fôra por ele encomendado no estaleiro de um mórmon, situado no rio Choptank, um dos afluentes da baía.

Ao ver o barco pronto, se recusou a aceitá-lo, pois o marceneiro naval, instalou , não só uma, mas duas quilhas ao lado da longarina mestra do veleiro, e não entre ela, como se costumava fazer em outros estaleiros, e pior , pequenas e uma à um terço da proa e outra ao quarto da pôpa!

Quebrou o maior pau entre cliente e o fabricante de barcos.

-Tu é louco , crente e filho de uma égua...arruinou o casco do meu barco!

-Posso ser louco mas não sou burro, seu filho de uma búfala!

-Quero meu dinheiro de volta!

-Impossível, já o enviei prá minha Igreja...

-Desgraçado, esse barco vai navegar torto, com essas duas  quilhas pequenas e mal posicionadas no casco!.

-Vai nada, seu marinheiro incompetente, além disso a longarina mestra é a segurança do barco nas águas da baía e do oceano, jamais um construtor naval sério, iria furar, rachar e enfraquecer a longarina prá embutir uma  ou duas  porcarias de quilhas no meio dela...

Barraco daqui, barraco dali, e entraram num acordo.

Até porquê, o Eric viu extasiado o belo mastro de carvalho, uma obra prima, montado no terço da proa, pura maestria de obra de arte.

Fixado no fundo do barco, na cabeça da   raíz principal  da mesma árvore, o carvalho que originou o mastro.

A base dele, quadrada, firmemente embutida na raiz fixada por travessas confiáveis entre as cavernas.

A transição de quadrado para sextavado, quase imperceptível, e na altura da passagem por uma  gaiúta, abertura de passagem dele no convés ,já octavado , e dali em diante cilíndrico e perfeito até seu topo aos 36 pés de altura.

O filho da mãe do mórmon havia deixado o mastro na altura de sua passagem no convés com uma folga na gaiúta, para evitar tensões de ventos fortes e que poderiam quebrá-lo.

Mesmo de cara amarrada, Eric não deixou de sorrir satisfeito ao ver a solução, mas claro , que muito discretamente pro crente não perceber , sua..."fraqueza".

Os estais e brandais de fixação do mastro ao longo do eixo proa-popa e no sentido tranversal de boreste à bambordo, tramados em feixes de sizal, super resistentes, pelo filho do mórmon.

A vela...deixou o Eric deslumbrado...

Feita de algodão pela esposa do religioso crente, e de uma espessura que o deixou abismado.

-Uau...ela resistirá a ventos de mais de 100 knots! Eric pensou no maior entusiasmo, aceitando imediatamente o barco, apesar de "aleijado" na posição das quilhas
.
Turrão como era, o Eric não dava o braço a torcer, apesar de maravilhado com a suavidade de navegação do Skipjack..."aleijado".

Só em seus momentos de conversas íntimas com sua alma, ele sorria no beliche do confortável alojamento da cabine,  e só entre ele e ela, ousava falar em silêncio, até prá nenhum dos seus amigos pescadores pensarem mal dele, afinal tinha a fama de pescador machão prá preservar.

-Filho da mãe, Mórmon desgraçado, me construíu o melhor barco do mundo!!!!

Nessa altura o Eric já havia percebido de onde o mórmon tirou a inspiração para construir o barco.

Do peixe...skipjack!

A curvatura do casco, e o formato das quilhas...

Copiou tudo do peixe, inclusive as formas das nadadeiras inferiores e as posições delas na barriga do peixe veloz!

E para não comprometer a "alma" do casco, sua longarina, havia disposto as quilhas,  uma de cada lado dela, e com isso . tornando o barco  de navegação fácil, obediente aos comandos ,   a leveza e suavidade da cana do leme.

Após ter feito sua farta e deliciosa refeição , ( receitas do guisado e do bolinho , em outra página do Blog )
Eric bateu um olhar para uma das margens da baía e viu um veleiro de turismo encalhado, ostentando a famosa bandeira de listras vermelhas e brancas horizontais  e as estrelinhas num retângulo superior esquerdo , hasteada num pequeno  mastro de pôpa.

Estava tripulado por senadores de Washington, em viagem de lazer com suas , belas secretárias.

Haviam descido o Rio Potomac, da Capital até aquele ponto da baía, prá brincarem de sacanagens com  as moças, suas secretárias, ou quiçá, suas "estagiárias".

E todos, pelo que viu o Eric no maior pavor, entregues às gulodisses dos enormes pernilongos que os atormentavam, na margem quase sêca da baía.

Pediram, desesperados prá que o pescador de ostras e caranguejos da baía, fôsse procurar socorro para desencalhá-los.

O Eric nem deu bola prás súplicas dele, e calmamente avaliou a situação.

A quilha do iate veleiro de luxo dos políticos, lastreada com duas toneladas de chumbo, enterrada até o gargalo na lama. ( só pôde avaliar o pêso dela , mais tarde )

O mais graduado do Capitólio a bordo, perdeu a paciência com o Eric.

-Vai buscar socorro prá nós seu plebeu, proletário, pescador de merda...

Eric, fingindo não ter escutado a ofensa, desenrolou 50 jardas de cabo de sizal tecido pelo filho do mórmon, e atirou uma das pontas pro skipper do barco de turismo, um almofadinha, todo vestido de branco e com chapéu de capitão na cabeça, que segundo Eric, bem ôca, prá ser surpreendido pela maré baixa.

Mandou o skipper escalar o mastro do barco  e amarrar o cabo bem na ponta dele.

Amarrou a outra ponta numa das tamancas da pôpa do seu SkipJack...

Içou a belíssima vela feita pela esposa do  crente construtor do melhor barco que ele já havia navegado, no maior rizo possível, expondo ela inteira ao primeiro sopro de brisa forte que viria do norte e que ele já a via se aproximando entre nuvens densas , cinzentas, e  escuras.

Como bom e sério marinheiro, preveniu os tripulantes prá se agarrarem bem firmes no veleiro encalhado.

Não demorou nem 3 minutos prá "brisa" , brisa uma ova, um ventão daqueles insuflar a vela do Skipjack.

Competentemente, Eric conduziu seu barquinho em direção contrária ao eixo transversal da borda do iate à ele exposta..

Fez de conta não ter escutado a gritaria histérica dos políticos corruptos e suas "comidinhas".

O mastro do iate se dobrando em direção à pôpa do SkipJack, lentamente.

A cada grau  de inclinação conseguido os guinchos de gritarias  histéricas no iate...aumentavam!

Menos de 1 minuto depois o mastro do iate, estava deitado nas águas da baía de Chesapeake.

A porra da quilha de 2 ton. e mal  projetada para a pequena  dimensão do iate, já exposta, derramando lama  cinzenta  sobre as plácidas águas...

A gritaria e histeria no iate, à mil...mas todos bem agarradinhos onde puderam.

Uma vez liberado da lama, o iate simplesmente não ofereceu nenhuma resistência à velocidade do SkipJack, que o arrastou por uns bons 300 pés, até onde já havia profundidade para flutuar de maneira mais digna.

A porcaria da quilha mal projetada, pelo menos serviu prá ser o João Bôbo do iate e botá-lo de pé.

Eric mandou o skipper do iate desamarrar o cabo do mastro do barco dele e o recolheu calmamente.

Olhou prás pessoas no Iate...

Pálidas ainda, mas comemorando o desencalhe com euforia, já fora do alcance  dos pernilongos das margens.

No que Eric, aproximou seu casco ao deles, recebeu ofertas generosas de champagnes geladíssimas e francesas...

-Só bebo bourbon da marca do perú selvagem ( Wild Turkey )! falou pros políticos corruptos e frescos de Washington.

O skipper (capitão) do Iate dos políticos perguntou pro Eric quanto ele iria querer cobrar prá tê-los desencalhados.

Sem pestanejar, Eric falou o prêço.

-MIL DÓLARES!

O político mais graduado do Capitólio, ficou vermelho e espumou de ódio na hora.

-Pescador Filho da Puta, você não gastou mais de cinco minutos prá nos desencalhar...

-Perdão senhor , não estou cobrando mil dólares pelos meus cinco minutos de trabalho  prá desencalhar seu Iate...

-Ahhh...bom ...e quanto então?

-Apenas um dólar...por fazer o serviço, senhor... e,

 NOVECENTOS E NOVENTA E NOVE DÓLARES POR "SABER"  COMO FAZER!

(*) receitas  do guisado de ostras , bolinhos de caranguejos, e coquetel de caranguejo,  seguirão no Blog, ainda em construção

Se gostou do texto, veja também:

http://www.ducae85.blogspot.com/

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